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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Nebbiolo e Marzemino: vinícola testa adaptação de uvas europeias para criar vinhos únicos

Casa Marques Pereira testa Nebbiolo, Marzemino e Alvarinho antes de levar as variedades aos vinhedos


Foto: Divulgação


A adaptação de uma variedade de uva a um novo território começa antes do plantio em escala. Em Monte Belo do Sul, na Serra Gaúcha, a Casa Marques Pereira mantém uma área experimental para testar castas ainda pouco comuns na região. Foi nesse processo que Nebbiolo e Marzemino, variedades italianas, passaram a ser avaliadas nas condições do terroir local.

Antes da implantação dos vinhedos, a propriedade leva entre 25 e 50 mudas de cada variedade para a área de testes. As plantas são acompanhadas ao longo de três safras para observar como respondem ao solo, ao clima e ao manejo.

"O primeiro ponto que a gente observa é a sanidade. É uma uva que você consegue começar e terminar o ciclo dela com poucos problemas? Depois vem o período do ciclo. Uma uva que tem um ciclo precoce, uma uva que tem um ciclo mais longo, tudo tem diferença", explica Felipe Marques Pereira, da Casa Marques Pereira.

O período de maturação é um dos critérios considerados pela equipe. Na Serra Gaúcha, variedades de ciclo muito longo podem chegar ao final da safra em uma época de maior tendência de chuvas, o que aumenta o risco de problemas sanitários e pode comprometer a colheita.

O formato dos cachos também entra na avaliação. A equipe observa se são mais compactos ou abertos, além da espessura da casca e do comportamento da fruta durante a maturação. A análise busca identificar plantas que consigam completar o ciclo em uma janela mais segura e entregar concentração e qualidade.

"Uma uva estar adaptada são essas condições. Uma uva que a gente consiga colher dentro de um período mais seguro, que tenha poucos problemas de sanidade, que tenha uma boa concentração e qualidade de fruta", afirma Felipe.

A Nebbiolo, tradicional do Piemonte, e a Marzemino chegaram à área experimental por apresentarem características que despertaram o interesse da equipe. O acompanhamento das plantas permitiu entender se o comportamento observado em seus locais de origem se repete ou muda diante das condições encontradas em Monte Belo do Sul.

A avaliação também não termina na colheita. Depois de observar o comportamento agronômico, o produtor transforma as uvas em vinho para entender como as características da fruta se expressam naquele território.

"Quando a gente plantou o Nebbiolo aqui, a gente não plantou esperando produzir Barolo. A gente estava apostando numa uva de qualidade para se produzir aqui, mas diferente das tradicionais", diz Felipe.

A mesma lógica orientou os testes com a Marzemino. A intenção não é reproduzir na Serra Gaúcha o vinho produzido tradicionalmente na Itália, mas compreender o que a variedade pode entregar nas condições brasileiras.

"A gente não estava buscando copiar o estilo do vinho Marzemino da Itália. Porque nós sabemos que nós temos condições aqui diferentes de cultivo", afirma.

Após o período de testes, vem a hora de outra fase do trabalho em campo, a seleção massal, a técnica de melhoramento genético consiste em implantar áreas de produção com o material extraído das mudas que mostraram melhor adaptação e produtividade.

“Utilizamos esta técnica tanto na implantação de novas cepas como no melhoramento de áreas já existentes, ano a ano há alguma muda que se destaca e vira doadora do seu material genético para melhoras outras mudas com desempenho que não esteja satisfatório”.

A experiência com variedades pouco comuns faz parte de um trabalho de seleção que também envolve castas com maior histórico no Brasil. É o caso da Alvarinho, que já é cultivada por produtores brasileiros e cujo comportamento em diferentes regiões é mais conhecido.

"Então, daí veio a aposta nela. Já era conhecido o perfil de vinho que ela costuma produzir na Serra, na Campanha. Então, foi mais fácil optar por ela", explica Felipe.

A diferença entre as variedades também mostra como a escolha de uma casta pode partir de diferentes níveis de conhecimento sobre sua adaptação. Enquanto a Alvarinho já chega ao projeto com referências de cultivo no país, Nebbiolo e Marzemino precisaram primeiro passar por um período de observação (pois já estão implantadas definitivamente no vinhedo).

Recentemente, em 2025, a vinícola implantou uma área de produção comercial da variedade Encruzado, originária da região do Dão em Portugal, o cultivar esteve em testes até a decisão da implantação no ano passado. 

“É uma uva branca de grande potencial para a serra gaúcha, traz um enorme frescor e uma paleta de aromas diferente dos habituais brancos brasileiros com notas de lima, rosas e violetas além de uma marcante nota mineral”, conclui.

Os vinhos foram produzidos com extremo rigor e colocados à venda como uma alternativa ao consumidor, mas que mostra a força do terroir gaúcho. O Nebbiolo converge uma explosão de frutas e aromas florais, a Marzemino uma elegância diferenciada e a Alvarinho traz corpulência, complexidade aromática e acidez que pede mais um gole.


Serviço:

www.casamarquespereira.com.br


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